quinta-feira, 16 de maio de 2013

A esperança é alviverde


Futebol não se constrói apenas com sorrisos. O amor a um time é feito também de lágrimas, de gols perdidos e de erros de arbitragem. E como a tragédia pode ser recorrente, amigos! Não há time que não tenha em sua história uma garfada inesquecível, capaz de subtrair o título cobiçado há eras ou a almejada vitória num simples confronto regional. As chances desperdiçadas são um caso à parte. Penalizamos o goleiro que falha, mas e o atacante que, cara a cara com o gol, e às vezes sem arqueiro, perde uma oportunidade inacreditável? Tendemos, quase sempre, à crucificação do guarda-meta, porque precisamos expiar os pecados coletivos. Claro, o mão de alface patológico deveria ser extirpado das quatro linhas, porém não há ser humano infalível. Os homens que se aproximam disso se tornam lendas ou, dependendo da agremiação, santos. No Pacaembu, não houve nem uma coisa e nem outra. Houve mais: a torcida que canta e vibra.
Se na grama sintética do México o alviverde encontrara dificuldades insuperáveis, no Brasil o peito se mostrou sintético, destoando dos mais de trinta e sete mil batimentos que lotaram o estádio, transformando-o em uma extensão orgânica do antigo Palestra Itália. A movimentação em campo era mínima e muitos atletas pareciam temer a bola. Evitá-la a todo custo parecia a palavra de ordem. Ninguém se apresentava, ninguém babava e arregalava os olhos, porque não era a vida deles que estava ali. Quando a marcação é implacável e há gritos, loucura e hombridade qualquer clube se torna temido, e qualquer time se faz grande.
Ontem, porém, era tempo de pequenez. O elenco se amesquinhou enquanto a torcida se agigantou. Talvez nunca houvera geração palestrina tão dourada nas arquibancadas do Paulo Machado de Carvalho. E isso, meus amigos, é um lingote de ouro. Essa é a riqueza de um clube. Talvez poucas coisas valham tão a pena no futebol. O pranto da criança que viu o Maracanazo é aquele que a fará crescer para ganhar uma Copa do Mundo oito anos depois. Nesse ínterim está a verdadeira paixão, está a criação de mitos.
São tempos difíceis. Manter-se palmeirense é exemplo máximo de amor, de quem não abandona, de quem sofre junto diante das maiores adversidades e espera por outro amanhã, ainda que as decepções se sucedam sem trégua. Não há bem que sempre dure e nem mal que nunca acabe. Nas quatro linhas, a bonança é cíclica. A grandeza de uma equipe não se mede somente pelo número anotado no escore, mas por fatores extracampo. E como a história pode ser injusta nesse sentido! A frieza dos placares muitas vezes não retrata a explosão do aficionado. O canto eufórico não integra nem nota de rodapé. No máximo, seu registro morrerá em alguma crônica, quando não permanecer tão-somente na memória do futebolista, cabendo ao Camões de ocasião exaltar as conquistas de sua Nação futebolística para as próximas gerações.
Da partida contra o Tijuana pouco se contará. Provavelmente cairá no esquecimento, como tantas outras. Talvez se diga que as chuteiras calçavam desertos e que nada de belo poderia nascer dali, talvez alguém destaque que fora um jogo cruento, repleto de cartões amarelos para a equipe mexicana, e que determinados jogadores do Palmeiras falharam em jogadas capitais. Outros apontarão equívocos do árbitro. No entanto, a grande lembrança da noite terá sido uma vitória inaudita: a da torcida que arrematou o caneco moral, ao apoiar do começo ao fim um elenco aquém de todas as expectativas.
Torcer para o Palmeiras tem sido uma tarefa de Sísifo, mas, mitologia por mitologia, os gregos diziam que Pandora abrira a caixa com todos os males do mundo, restando apenas a esperança em seu fundo. Os deuses do futebol diriam que ficara somente o Palmeiras. A esperança é verde. E mais verde é o Palmeiras.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Vontade de Constituição

Nesta semana, um partido político recém-nascido expôs em um Manifesto à Nação um objetivo temerário: a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. O partido defende uma proposição natimorta, pois inconstitucional. Aliás, o manifesto já explicita “dirão que [a convocação] é inconstitucional”.
E, de fato, ela o é.
Primeiramente, é importante assinalar que os motivos propugnados para fundamentar a proposta de revisão são demasiadamente vagos e a solução para tais problemas seria possível sem derrubar a Constituição, templo tão violado e remendado por inúmeras emendas constitucionais. Desta vez, porém, tratar-se-ia de um golpe de morte. Segundo os redatores do dito manifesto, essa revisão teria o escopo de viabilizar as reformas "política, tributária, fiscal, penal, trabalhista". Ora, a Constituição já garante o ferramental transformador fundamental, lembrando que ela sozinha, de per si, não muda o estado das coisas. Além do mais, qual seria a reforma tributária? Seria aquela distributiva que pesaria sobre os ricos e desoneraria os mais pobres? Qual seria a reforma política? Aquela instituidora, por exemplo, do recall, habilitador da revogação de mandatos eletivos?
Em segundo lugar: a Constituição não é uma folha de papel, na linha do proposto por Ferdinand Lassalle – e por alguns partidos brasileiros, infelizmente. E mais: não é apenas política. Ela é, também, jurídica e possui força normativa, não se sujeitando ao arbítrio de determinados fatores reais de poder ilegítimos presentes na sociedade.
Talvez a declaração do manifesto reflita um erro de diagnóstico. Quem sabe o partido confundiu “crise da Constituição” com “crise constituinte”? De acordo com Paulo Bonavides, no primeiro caso, existe uma crise na própria Lei Maior; enquanto que, no segundo, há uma crise mais severa, das instituições, dificilmente sanável pelos próprios instrumentos constitucionais, exigindo, na verdade, a superação do atraso social e a reorganização da esfera econômica. De qualquer forma, a dúvida permanece: seria um equívoco de análise ou um desrespeito do partido à Carta Magna?
Em um dado momento, o texto partidário afirma que a revisão não foi feita, caindo, então, “no esquecimento”. Fato: a revisão sugerida já se materializou, diferentemente do que apregoa o referido manifesto. O Art. 3º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias é norma constitucional de eficácia exaurida, esvaída. A competência revisional se esgotou com a elaboração de 6 Emendas Constitucionais Revisionais, todas publicadas no Diário Oficial da União em 1994.
Em artigo intitulado “Ter e Estar em Constituição”, o constitucionalista espanhol Pablo Lucas Verdú destaca que o povo se desilude com a Constituição quando se sente esquecido por ela. Essa situação é gerada, lembra o autor, pela falta de ações concretizadoras (por parte do Legislativo e do Executivo) do texto magno. Daí a descrença popular.
A Constituição é de todos os brasileiros e não só dos juristas. Trata-se da Constituição Cidadã, que se situa acima dos governos – que são provisórios – e dos políticos de interesses duvidosos, que, não raro, em nada refletem o desejo do povo. Nas palavras de Raymundo Faoro, “a mais grave de todas as formas de falseamento da soberania popular é aquela que usurpa a legitimidade, confundindo-a com o poder”. Se a convocação vier, caberá ao Supremo Tribunal Federal, enquanto guardião máximo da Constituição, protegê-la do casuísmo manifesto e da política de ausência de vontade de Constituição. É preciso lutar pela Constituição, tendo por base, em feliz expressão de Konrad Hesse, vontade de Constituição. De todos nós.

Sergio