Futebol não se constrói apenas com sorrisos. O amor a um time é
feito também de lágrimas, de gols perdidos e de erros de
arbitragem. E como a tragédia pode ser recorrente, amigos! Não há
time que não tenha em sua história uma garfada inesquecível, capaz
de subtrair o título cobiçado há eras ou a almejada vitória num
simples confronto regional. As chances desperdiçadas são um caso à
parte. Penalizamos o goleiro que falha, mas e o atacante que, cara a
cara com o gol, e às vezes sem arqueiro, perde uma oportunidade
inacreditável? Tendemos, quase sempre, à crucificação do
guarda-meta, porque precisamos expiar os pecados coletivos. Claro, o
mão de alface patológico deveria ser extirpado das quatro linhas,
porém não há ser humano infalível. Os homens que se aproximam
disso se tornam lendas ou, dependendo da agremiação, santos. No
Pacaembu, não houve nem uma coisa e nem outra. Houve mais: a torcida
que canta e vibra.
Se na grama sintética do México o alviverde encontrara
dificuldades insuperáveis, no Brasil o peito se mostrou sintético,
destoando dos mais de trinta e sete mil batimentos que lotaram o
estádio, transformando-o em uma extensão orgânica do antigo
Palestra Itália. A movimentação em campo era mínima e muitos
atletas pareciam temer a bola. Evitá-la a todo custo parecia a
palavra de ordem. Ninguém se apresentava, ninguém babava e
arregalava os olhos, porque não era a vida deles que estava ali.
Quando a marcação é implacável e há gritos, loucura e hombridade
qualquer clube se torna temido, e qualquer time se faz grande.
Ontem, porém, era tempo de pequenez. O elenco se amesquinhou
enquanto a torcida se agigantou. Talvez nunca houvera geração
palestrina tão dourada nas arquibancadas do Paulo Machado de
Carvalho. E isso, meus amigos, é um lingote de ouro. Essa é a
riqueza de um clube. Talvez poucas coisas valham tão a pena no
futebol. O pranto da criança que viu o Maracanazo é aquele que a
fará crescer para ganhar uma Copa do Mundo oito anos depois. Nesse
ínterim está a verdadeira paixão, está a criação de mitos.
São tempos difíceis. Manter-se palmeirense é exemplo máximo de
amor, de quem não abandona, de quem sofre junto diante das maiores
adversidades e espera por outro amanhã, ainda que as decepções se
sucedam sem trégua. Não há bem que sempre dure e nem mal que nunca
acabe. Nas quatro linhas, a bonança é cíclica. A grandeza de uma
equipe não se mede somente pelo número anotado no escore, mas por
fatores extracampo. E como a história pode ser injusta nesse
sentido! A frieza dos placares muitas vezes não retrata a explosão
do aficionado. O canto eufórico não integra nem nota de rodapé. No
máximo, seu registro morrerá em alguma crônica, quando não
permanecer tão-somente na memória do futebolista, cabendo ao Camões
de ocasião exaltar as conquistas de sua Nação futebolística para
as próximas gerações.
Da partida contra o Tijuana pouco se contará. Provavelmente cairá
no esquecimento, como tantas outras. Talvez se diga que as chuteiras
calçavam desertos e que nada de belo poderia nascer dali, talvez
alguém destaque que fora um jogo cruento, repleto de cartões
amarelos para a equipe mexicana, e que determinados jogadores do
Palmeiras falharam em jogadas capitais. Outros apontarão equívocos
do árbitro. No entanto, a grande lembrança da noite terá sido uma vitória inaudita: a da torcida que
arrematou o caneco moral, ao apoiar do começo ao fim um elenco aquém
de todas as expectativas.
Torcer para o Palmeiras tem sido uma tarefa de Sísifo,
mas, mitologia por mitologia, os gregos diziam que Pandora abrira a
caixa com todos os males do mundo, restando apenas a
esperança em seu fundo. Os deuses do futebol diriam que ficara somente o
Palmeiras. A esperança é verde. E mais verde é o Palmeiras.